Por Arilson Silva, adaptado do texto
de Karl Dahlfred, missionário
“A casa do Soldado da Paz”
Quando um Soldado da Paz é designado para uma missão no
exterior, é óbvio onde é a sua “casa”. É o lugar de onde acabou de sair. É o
local onde nasceu, foi à escola, teve seus estudos, descobriu uma igreja, um
clube, é onde trabalhou parte da vida e formou seus relacionamentos mais
importantes. É onde está sua família. Sua história estava toda ali. Mas quando
mora ou outro país, uma estranha transição acontece.
Seu país natal - sua casa - não parece mais como sua
casa. E quando você “vai para casa” algumas das mesmas pessoas e lugares estão
lá, mas a vida caminhou em sua ausência. Quando você aparece para “um tempo em
casa”, ou retorna definitivamente da sua missão, você não pode recomeçar de
onde parou. Você é um visitante, um estrangeiro. Um convidado sem um papel
permanente. Seus amigos próximos fizeram outros amigos. Alguma nova tecnologia,
gíria, ou moda tornou-se comum... exceto para você, porque você perdeu isso
quando saiu.
Na missão em outro país, você dizia coisas como “no meus País...” mas
poucas pessoas no país onde você está podiam se relacionar com a sua história.
Eles ouviam educadamente, mas você sabia que eles não conseguiam entender. Mas não
tinha problema. Você se consolava com o pensamento de que “as pessoas em casa
entenderiam”.
Mas, de forma ainda mais estranha, aquelas pessoas que
você tinha certeza de que entenderiam... eles não entendem. Agora que você está
de volta, você está cheio de experiências e histórias do lugar que tornou-se
seu segundo lar. Você diz coisas como “Lá no país onde morei...” mas, é claro,
o que você contar a eles sobre o país onde morou é difícil de entender. As
coisas que você sente falta do país onde viveu recebem uma expressão confusa,
ou até mesmo uma declaração: “Que estranho!”.
Depois que você termina de contar a história, as
pessoas voltam a falar da última partida do seu time preferido, das últimas
notícias sobre política, ou algum assunto ao qual você não deu tanta
importância nos últimos meses. Não quer dizer que eles não gostam de você. Eles
gostam. Eles estão felizes que você está finalmente “em casa”. Mas aquelas
pessoas “de casa” simplesmente não conseguem se relacionar com suas experiências
“naquele lugar”, naquele país com nome engraçado, onde as pessoas tem nomes
mais engraçados – e impronunciáveis – ainda.
Quando você viaja “para casa”, as pessoas te dizem “Não
é bom estar em casa?!”e você pensa: “É, mais ou menos”. Agora que você já comeu
algumas de suas comidas favoritas, e viu alguns velhos amigos, há algumas pequenas
razões para ficar “casa”. Você começa a sentir falta daquelas coisas sobre o
país onde viveu e passou a amar. Certas comidas, amigos locais, o papel na
missão que você estava cumprindo com tanto empenho e alegria fazem muita falta.
“Casa” já não é mais “casa”. E, tristemente, aquele lugar no outro país nunca
será sua “casa” também.
“Em casa”, o Soldado da Paz sonha sobre outro país onde mora”.
“No outro país, o
Soldado da Paz sonha sobre o seu país natal”.
“Casa” é em ambos os lugares, e nenhum lugar ao mesmo tempo.
Soldados da Paz são sempre pegos em meio a dois mundos. Eles não podem
mais se identificar completamente com as pessoas que eles deixaram para trás no
seu país natal. Mas eles nunca se identificarão de verdade com as pessoas no
país onde vivem. “Casa” é em todo
lugar. “Casa” é em nenhum lugar.
Mas está tudo bem. Já houve outros Soldados da Paz nesta mesma
estrada.
Enquanto continuarmos aqui na terra, levando a paz aos
mais diversos lugares do mundo, sempre ficaremos um pouco deslocados e sem
lugar. Soldados da Paz e aqueles que moram em algum lugar diferente de onde
cresceram experimentam isso mais do que outros. Mas algum dia, na eternidade, todos
nos encontraremos e, finalmente estaremos em casa.
Arilson Silva, militar do Corpo de Fuzileiros Navais
do Brasil, é um Mantenedor da Paz das Nações Unidas, tendo participado por duas
vezes, da Missão da ONU para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH) e integrou o
Grupo de Assessoramento Técnico de Fuzileiros Navais junto à Guarda Costeira de
São Tomé e Príncipe, na África. No seu tempo livre, dedicou-se a desenvolver
atividades nas áreas de cidadania e ecologia junto aos jovens locais, por meio
do Método Escoteiro de Lord Baden Powell.
